O jornalista e professor Carlos Costa, de 55 anos, além de dar aulas de Design Gráfico, Jornalismo em Revista e História da Comunicação para alunos da graduação, edita a revista Libero, da pós-graduação da Cásper LÃbero e Diálogos&Debates, do Tribunal Paulista. Bacharel em Teologia e Filosofia, formou-se jornalista pela Faculdade Cásper LÃbero. Trabalhou na revista Playboy por mais de 15 anos. Como editor dela, planejou uma grande reportagem sobre a campanha de Collor para a presidência em 1989. Ele previu a queda, nas pesquisas eleitorais, do então candidato à s vésperas da eleição. Em 2005, participou da inovação na correção dos vestibulares da faculdade, em que professores de jornalismo corrigiram as redações dos candidatos a este curso, o que ele acredita ter trazido bons resultados. Da sala da pós-graduação na faculdade, concedeu a entrevista.
G.J. – O senhor começou como preparador de textos. Como chegou à redação?
Costa – Faltava a legenda, eu fazia. Faltava o “olho”, eu fazia. Aà eu aprendi a redigir, até que surgiu uma matéria. Eu já estudava na Cásper LÃbero e era formado em Filosofia.
G.J. – O senhor chegou a exercer algo da Filosofia ou da Teologia?
Costa – Não. Estava estudando para ser padre, mas não cheguei a ser.
G.J. – Mas o senhor realmente queria ser padre?
Costa – Quando eu tinha uns 12 anos.
G.J. – Está fazendo doutorado na ECA. Qual a sua tese?
Costa – Por que a Playboy foi sucesso no Brasil e não na Argentina. Fiz um trabalho comparando o mercado argentino e o brasileiro, o tipo de gosto do argentino, o do brasileiro, e análise das duas revistas. Eu também estou fazendo um trabalho que vai chamar Discursos AmbÃguos. As pessoas falam mal da televisão mas todo mundo adora. Certo? Eu quero saber o porquê disso. Em Julho quero fazer 15 grupos de discussão para ver o que as pessoas falam aqui, no Rio e em São José do Rio Preto ou em Londrina. Eu gosto mesmo de quando faço grandes entrevistas. Gosto muito de entrevistar.
G.J. – O senhor ter querido ser padre não o impediu de entrar para a Playboy? Ou o senhor vê como coisas separadas?
Costa – Não, não é separado. Tudo o que você aprende, como o fato de eu ter estudado grego, latim, não tem uma aplicação prática neste momento, mas tem no sentido de que a capacidade que você desenvolveu de aprender é mais importante do que aquilo que você aprendeu. Não são coisas distintas. O empenho que eu tive para estudar Teologia, uso hoje para editar um texto da LÃbero, por exemplo. É claro que quando se estuda dogma, religião, Playboy parece estar na outra trajetória. Mas fazer um bom trabalho você pode em qualquer lugar. Se eu fosse protestante ficaria mais complicado. A visão católica é um pouco mais abrangente. Assim, eu não tive peso de consciência, se essa é a sua pergunta. (risos)
G.J. – No livro NotÃcias do Planalto, de Mário Sérgio Conti, consta que o senhor previu a derrota de Collor nas eleições de 1989. Como foi isso?
Costa – Era tão óbvio, né? Quando você sai na frente, tem mais chance de ser apedrejado e cair. Então eu entrei numa história com a Belisa Ribeiro, que é uma pessoa muito “esperta”, para ela fazer uma grande matéria para depois contar como foi a queda do Collor. Eu não contava com o Roberto Marinho do outro lado. Ele teve uma certa intenção de apoiar o Covas, no começo. Votei no primeiro turno no Covas, porque era o candidato mais sério à presidência naquele momento. O Lula não estava preparado. Aliás, eu desconfio de que o Lula não esteja preparado nem hoje. Mas eu votei no Lula no segundo turno daquela eleição. Mas o Collor teve um aliado muito forte que foi as Organizações Globo. Hoje a Globo diz que não foi assim, mas foi. Era uma história ótima a contar: como um rapaz jovem, que começou com um discurso de marajás, era inconsistente. Mas eu me enganei. A Belisa, no meio do caminho, bandeou para o lado do Collor e demorou quase 6 meses para me avisar. Ela usava passagens da Editora Abril, salário de editor, para fazer um trabalho que não estava fazendo. Pouco ética.
G.J. – E ela estava infiltrada na campanha.
Costa – Para acompanhar e contar a história para Playboy.
G.J. – Mas eles não sabiam…
Costa – Não sabiam que ela Ãa contar a história do fracasso. (risos) Só que ela bandeou. Depois foi morar em Nova Iorque um tempo. Ela ficou meio queimada com a história da Lurian, a filha que o Lula teria pedido que fosse abortada. A mãe dela (MÃriam Cordeiro), uma enfermeira, deu depoimento na campanha do Collor. Foi uma mentira. O Lula foi um bom pai, pelo que parece. Eu acho que um dos motivos pelos quais ele perdeu as eleições foi essa história do aborto da Lurian. O pessoal humilde que ia votar nele ficou escandalizado.
G.J. – Então a Belisa estava como uma espiã na campanha. Como fica para o jornalismo essa prática?
Costa – Ela estava espiã é uma maneira de dizer. Na realidade, fiz um contato com o Cláudio Umberto, que era o braço direito do Collor para área de imprensa. Ele sabia que ela estaria acompanhando. Só que eu não falei para ele que era para contar a história da queda. Então ela estava, digamos assim, com permissão. Não escondida. Ela estava lá conversando, tanto que a convidaram para trabalhar na produção dos programas de televisão dele. E ela não fez a matéria para mim.
G.J. – O que o senhor achou do novo sistema de correção do vestibular da Faculdade Cásper LÃbero?
Costa – Os corretores que são professores de Português talvez estejam preocupados mais com o aspecto formal do que com o conteúdo. E foi a queixa de professores de cursinhos que preparam os alunos com frases prontas. Então teve caso de redação que era muito carregada de citação. Teve uma pessoa que devia citar 16 autores. Era um exercÃcio de exibicionismo, né? A pessoa estava querendo mostrar que conhecia autores, como se isso fosse importante. Importante era ser simples e responder ao que era proposto. Muitos alunos falaram sobre a espetacularização da notÃcia. Teve uma candidata que falou que a Gisele Bündchen era uma negação. Ela não é uma negação! Você namorar o Leonardo di Caprio, ser a modelo mais famosa do mundo, estar em todas as capas é ser uma negação? Não. Acho que você trabalhou direito. Eu queria ser uma negação como ela. Vai falar mal dela só porque está hiper exposta? Tem que falar mal de quem vê programas do Nelson Rubens, quem compra revistas de fofocas… O pessoal ficou muito impressionado com uma entrevista do Jurandir Costa Freire, um psicanalista, em que ele fala da sociedade espetáculo, das moças que morrem de fome para ficarem no perfil da magrela… Esse quadro o Jurandir já apresentou. Repetir o que ele falou? Eu acho que o resultado a gente vai ver a longo prazo. O que eu percebo é que há uma mudança séria no perfil do aluno da Cásper LÃbero desde o momento em que o professor Sidney Ferreira Leite assumiu o vestibular. Os alunos estão muito bem preparados do ponto de vista de leitura.
G.J. – Sobre o nÃvel da Faculdade? A Cásper tem fama de ser uma das melhores no Jornalismo.
Costa – Eu diria para você que é difÃcil dizer que os alunos da ECA são melhores que os da Cásper. Embora o processo seletivo lá seja mais competitivo por ter menos vagas. Em termos de material para trabalho, aqui você tem laboratório de televisão, de rádio, eu acho que por tudo isso a Cásper é melhor.
G.J. – Os alunos do primeiro ano da faculdade são um pouco receosos com o senhor, porque o senhor é um dos mais sérios, cobra bastante…
Costa – Você acha? (risos)
G.J. – Eu acho.
Costa – Tá… (risos)
G.J. – Já os alunos do 2º ano falam muito bem do senhor… Como vê esse amadurecimento de opinião dos alunos?
Costa – É aquela história de você formar para a pessoa usar lá na frente.
G.J. – E o que o senhor tem a dizer para os alunos do primeiro ano, uma dica para encarar a faculdade?
Costa – Eu tenho tanta coisa para falar… Uma delas seria o seguinte: em algum momento, há uma visão muito utilitarista da aprendizagem, “o que esse professor tá me falando não vai servir para minha vida”. Este raciocÃnio é bastante errado. Como eu falei no começo da nossa conversa, muitas das coisas que você aprende não têm aplicação agora, mas têm ao longo da sua vida. Mesmo alguma expressão de Português que vai no dicionário aprender. Então, que eles tenham menos visão utilitarista, sejam generosos e não façam economia de tempo dedicado ao estudo.