Dona Vírgula e seus apostos
September 11th, 2005Editada.
Ela era a única que podia separá-lo de seus irmãos, os verbos de ação e o de ligação. Sujeito não suportava a idéia de conviver vinte e quatro horas com um ou outro irmão. Era sempre assim: quando um não estava incentivando os adjetivos a qualificarem-no, o outro estava dando-lhe ordens. É ruim ser o filho do meio de D. Oração e Seu Período.
A cada parágrafo que se passava o sujeito ficava mais encantado com as curvas da vírgula. Sua sílaba pulsava mais tônica quando sua musa se explanava ao seu lado. Às vezes tinha a impressão de que era inexistente para ela. Para fazer charme, ficava oculto.
Infelizmente, como todo romance escrito, este que conto não tem só momentos de felicidade. Vírgula até se interessava por aquele sujeito – mesmo quando ele estava simplezinho –, mas não suportava o ciúme que ele tinha de seus amigos. Ela sempre teve grande amizade com o adjetivo, por exemplo. E o sujeito passou a reclamar das vezes em que ela o levava em seus apostos. Sem contar que ela, necessariamente, para estar com ele, precisava da ajuda de seus irmãos. Ela não suportava quando ele sacrificava seus encontros só para não vê-la ao lado de algum dos verbos.
A vírgula, então, passou a estabelecer objeções. Ficou cheia de poréns e afastou-se dele. Só fazia um apostinho ou outro e ainda só se fosse para depreciá-lo. Ela nunca gostou de sujeitos obsessivos. Para ela já bastam seus primos, os pronomes, aqueles oblíquos cheios de tratamento, dando uns de possessivos para cima das moças.

September 17th, 2005 at 12:01 am
Ô Dona Gabi, ó sua sua crônicaqui!
Uma revisãozinha e… tcharan!
September 17th, 2005 at 11:12 pm
Bom, pelo menos me livro de um trabalhinho extra, né.
September 19th, 2005 at 4:31 pm
Nossa Gabis,
Crônica pura!!!!
September 22nd, 2005 at 1:48 pm
pacere com algumas coisas do luis fernando veríssimo (e isso é um elogio).
February 21st, 2006 at 7:56 pm
E eu aqui pensando que a vírgula e o aposto eram um romance consumado. Adorei essa crônica Gabriela!!